Opinião: Nininha se foi

Flávia Leão (de Formiga)

Opinião: Nininha se foi
Flávia Leão é servidora da Prefeitura de Formiga e escritora




Emília, para os mais formais. Mas pra nós, sempre Nininha — feita de exagero, gargalhada e coração escancarado.
Viveu quase nove décadas, como quem desafia o tempo a acompanhá-la no passo.
Nunca se casou. E daí? Amou à sua maneira — com cuidado, com força, com presença.
Especialmente os sobrinhos: por nós, fazia de um tudo, e mais um pouco.
Era boa de vôlei, boa de samba, boa de encrenca. Sabia brigar como poucas — e amar como só ela.
Tinha gosto por tudo que era intenso: as histórias de Carlitos, os dramas do Gordo e o Magro, os sambas antigos que ela cantarolava sem perceber, e águias — sim, águias, aquelas aves altivas e solitárias, que cruzam o céu sem pedir licença a ninguém.
Lia romances de banca como quem devora o mundo: uma paixão por paixões alheias. Às vezes ria alto no meio da leitura, outras vezes chorava. E era tudo verdade, porque Nininha acreditava nas histórias com o corpo inteiro.
Sua mente era uma ventania. Uns diziam que era confusão, outros que era desvio.
Eu prefiro dizer: era liberdade. Autenticidade crua, bonita e desconcertante.
E talvez por isso — por ser tão ela, tão inteira — morreu em paz. Sem doença, sem drama, sem amarras.
Porque certas pessoas não se quebram por dentro: apenas pousam, quando chega a hora.
Vai, Nininha.
Leve tuas 18 colheres de açúcar no chá, tuas novelas românticas, tua língua afiada que cortava só pra proteger.
Vai, que aqui a gente te lembra como se lembra das personagens boas: com saudade, riso e respeito.