Opinião: O Bom Amigo

Opinião: O Bom Amigo
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista.




Há coisas na vida que não se compram, não se ensinam, não se pedem — apenas acontecem. Amizade verdadeira é assim: não precisa ser anunciada. Mora nos gestos pequenos, no silêncio que entende, no abraço que não cobra explicação. Numa época de encontros ligeiros e conversas rasas, o bom amigo é aquele que fica, mesmo quando tudo parece partir.
Algumas pessoas chegam sem fazer barulho. Puxam uma cadeira, se sentam ao nosso lado e pronto: a vida parece menos pesada. O bom amigo não força a porta, não se impõe — apenas está. E, com ele, o mundo desacelera. Há quem goste de falar muito, mas com o amigo de verdade o silêncio também serve de abrigo. Basta estar ali.
A amizade de verdade não conta quem faz mais. É uma estrada de mão dupla: ouvir, acolher, respeitar. Não interessa quem ligou por último, quem cedeu primeiro. O bom amigo não disputa espaço — oferece. Às vezes é o primeiro a perceber uma lágrima que nem chegou a cair. Outras, é quem nos lembra de sorrir de novo.
Há laços que não se medem pelo tempo, mas pela força. O bom amigo aparece quando a alegria explode ou quando a tristeza aperta. Ele ri junto, mas também senta ao nosso lado quando o choro engasga. Não tem vergonha de ficar em silêncio. Só fica. E isso basta.
Ser amigo assim é como sentar na beira de um rio calmo. A paisagem pode ser sempre a mesma, o peixe nem precisa aparecer — o que vale é estar ali, dividindo o tempo, sem pressa de ir embora.
Nesse jeito de amar cabe também o olhar de um cachorro, o ronronar de um gato. Quem já sentiu o afeto de um bicho sabe o valor de um amor que não exige nada em troca. Eles não substituem ninguém — mas ganham, com justiça, um lugar bonito na nossa vida.
O bom amigo não tem resposta pra tudo. Mas caminha junto. Quando o chão falha, é ele quem segura nossa coragem para não quebrar. Não espera medalhas, não faz cobranças — mas é presença que acalma.
Num mundo que fala alto demais, a amizade de verdade é refúgio. É o gesto simples que se repete até virar lembrança boa. Um colo que fica. Um canto de paz. Quem tem um amigo conhece a beleza do céu sem nunca ter estado lá.