Opinião: Pérolas, má fé e presepadas da mídia.

Anísio Cláudio Rios Fonseca (de Formiga/MG)

Opinião: Pérolas, má fé e presepadas da mídia.
Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor e pesquisador do UNIFOR-MG Coordenador do laboratório de mineralogia. e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br




O jornalismo realmente é algo muito interessante. Ter compromisso com a realidade e, ao mesmo tempo, conseguir fazer com que uma notícia seja veiculada de forma atrativa e sem faltar com a verdade é algo pra lá de difícil e exige um tremendo grau de profissionalismo por parte de quem trabalha com a notícia. Atualmente isto se tornou mais do que crucial, graças à desinformação da internet e nível cultural e intelectual sofrível da população, o que teoricamente deveria obrigar a veiculação das notícias com mais seriedade. Escrever neste diário sempre foi algo que me deixou tranquilo, pois não há aqui o sensacionalismo barato. Não sou jornalista, mas aprecio muito a notÍcia colocada de maneira clara, sem termos muito rebuscados e, acima de tudo, condizente com os fatos abordados. Infelizmente as fake news deturpam a realidade e podem ser tratadas como formas de terrorismo. Há diversos casos onde a notícia é acompanhada por deslizes de boa-fé e de má-fé. Os de má-fé são facilmente detectáveis ao se cruzar dados da informação recebida com a fonte da mesma, podendo fazer assim um paralelo entre que aconteceu e o que foi veiculado. Os deslizes de boa-fé são certamente os mais perigosos. 

Tive um professor na UFLA que frisava que toda informação tinha que ser acessada em sua fonte. Não deveríamos confiar nem nas traduções, procurando estudar os originais das obras científicas e/ ou informações. 

Como formadora de opinião, a imprensa séria deve primar pela qualidade técnica de suas matérias, mantendo-se fiel aos princípios de levar a informação a todos, mas informação que seja verídica do início ao fim. Estou falando insistentemente sobre isto porque já cansei de ver e ouvir mídias diversas e telejornais soltarem “pérolas” inacreditáveis. Repórteres e âncoras com salários estratosféricos soltando pérolas dignas de programas de humor. 

Comentei em aula com meus alunos sobre um telejornal que noticiou que o departamento de geofísica da UNB (Universidade Nacional de Brasília), após anos de pesquisa, descobriu que Brasília está situada a apenas 40km do núcleo terrestre; daí pensei: -

_Ouvi errado, tenho que ter ouvido errado; devo ter moscado aqui. 

Daí repetiram a mesma asneira. Ora, claro que o geofísico responsável pelo trabalho de pesquisa passou as informações de maneira técnica e correta, mas a chamada da matéria foi totalmente descabida e incorreta, baseada em “achismos” e embasada na lei de “La Cochambra”.

Vejam bem, nosso planeta está dividido, grosso modo, em camadas concêntricas que começam com a crosta, manto, núcleo externo (ferro-níquel líquidos) e núcleo interno (ferro-níquel sólidos). O núcleo externo está situado a aproximadamente 2.900km de profundidade e tem uma espessura média de 2.200 km. O núcleo interno está situado a 5.000 km de profundidade, sendo o último uma esfera de ferro-níquel sólida com um raio de 1.271 km aproximadamente. O raio equatorial da Terra é de aproximadamente 6.371 km. De posse destes dados, o que a repórter quis dizer é que Brasília está situada a 40 km acima do manto externo, ou seja, a espessura da crosta terrestre ali é de 40 km. A crosta continental é mais espessa que a crosta oceânica, atingindo de 30 a 80km de espessura em média, dados estes obtidos através da leitura de ondas sísmicas. Já a crosta oceânica varia de 5 a 10km de espessura.

Não quero de forma alguma exigir que todo mundo da mídia tenha que saber tudo, mas o repórter investigativo tem que ter compromisso com a ciência e estudar muito sobre o que vai falar, para não externar bobagens. Ele deve traduzir a linguagem científica para uma linguagem coloquial, sem que isso prejudique o valor técnico da matéria. Palavra é fonte de mal-entendidos quando usada inconsequentemente e para grande parte das pessoas que está do lado de cá da telinha, aquelas palavras são verdades. A maioria da população já sofre com um baixíssimo nível de educação agravada pela má-vontade política e, ainda por cima, vêm certos setores das mídias colaborar com esta política de desinformação. 

Este foi apenas um caso; há vários outros que nos bombardeiam a cada dia e que muitas vezes nem percebemos, mas contra os quais temos que nos proteger.