Opinião: Pesadelo

Opinião: Pesadelo
Ana Pamplona (de Formiga)




— É só um pesadelo, só um pesadelo, um pesadelo! Isto não é real, vai acabar agora! — Otto recitou as palavras libertadoras que seu pai lhe ensinara quando criança, enquanto inclinava a cabeça para baixo, apertando o pescoço, tossindo e tentando cuspir o objeto invisível que não engolira.
Funcionou. Passou a tempestade. Abriu os olhos, tudo escuro. Piscou várias vezes até acostumar com a escuridão e viu a esposa deitada a seu lado fitando-o estarrecida de susto.
Os pesadelos ficavam cada vez mais frequentes. Nicinha reclamava sempre pela manhã:
— Meu bem, o que foi que você engoliu essa noite? Apenas engasgou ou havia algum bicho papão te enforcando? Você não acha que deveria procurar ajuda profissional? Um psiquiatra, ou um psicólogo?
Constrangido, ele pedia desculpas, dizia que iria pensar na possibilidade, mas daí a pouco guardava aquele pensamento numa gaveta e seguia com a vida. Na próxima noite, outro pesadelo. Variava apenas o objeto que obstruía sua garganta e a irritação maior ou menor de Nicinha no outro dia.
Certa noite, enquanto passava pelo pesadelo do sufocamento, Otto teve uma sensação estranha, como se estivesse em plena consciência mental e não da forma confusa como se apresentam as experiências com sonhos. Com isto, ao invés de começar a gritar e agir para desengasgar-se, fez o oposto. Simplesmente não reagiu, apenas parou e prestou a atenção ao momento. Desta forma, conseguiu ver o que lhe acontecia com nitidez: um homem estava posicionado sobre seu corpo e o enforcava com violência. Mas aquilo não poderia ser verdade. Apesar do aperto aparentemente vigoroso daquelas mãos, ele não sentia sufocar-se. O que estaria ocorrendo? Era um sonho? Era uma experiência real? Dormia ou estava acordado? Quem seria aquela pessoa sobre ele? Fosse quem fosse, só sabia de uma coisa: aquele ser o detestava com todas as suas forças. Ao observar a expressão de ódio em seus olhos injetados, teve um medo súbito, e imediatamente, começou a sentir a pressão no pescoço. Lembrou-se do estado anterior e tentou acalmar-se. Voltou à normalidade. Percebeu, então, que as impressões sensoriais daquela experiência se manifestavam conforme seu estado de calma ou desequilíbrio. Ao apavorar-se, sentia o pulsar daquelas mãos lhe estrangulando. Ao acalmar-se, não sentia nada. Apenas estava ali, sem estar ali. Não sabia se dormia, se estava acordado ou, quem sabe... morto?!
“Então isto é o que? Sonhar? Viver? “ pensou. “Qual destas duas vidas é real? Afinal, quem sou eu? Este que está sendo estrangulado ou o que acordará agora aos berros, assustando todos da casa? “. Enquanto pensava assim, fixou firmemente o olhar no seu agressor. “Será que conheço esse infeliz? “. Não se recordava daquela fisionomia, porém, o mais certo é que ele o conhecia. Resolveu tirar a dúvida. Tentou conter-lhe as mãos, inutilmente. Tentou falar-lhe, inutilmente. Num gesto instintivo, fechou os olhos, concentrou-se e dirigiu o pensamento firmemente àquela alma atormentada: “Ei! Quem é você? Por que me agride? Não lhe conheço! Nunca lhe fiz nada de mal! O que quer de mim, além de matar-me? “
Surpreendentemente, o agressor estacou de imediato ao impacto daquelas palavras que não foram ditas, mas pensadas. De alguma forma, o homem ouvira o apelo de Otto. Respondeu da mesma forma: “Ora, não te faças de bobo, sou o Santiago! Por que não mandaste rezar a missa de sétimo dia para mim, conforme me prometeste no meu leito de morte? “ Otto ficou paralisado com aquela resposta ressoando em seus ouvidos virtuais. Missa? Santiago? Leito de morte? Meu Deus do céu, quem seria aquela criatura que falava na segunda pessoa?
Intuitivamente, deduziu que naquele momento não iria descobrir. Só sabia que precisava resolver aquele impasse naquele momento, sem perder a oportunidade de livrar-se de um inimigo desconhecido, um tanto virtual (não sabia que termo usar para aquilo), mas que incomodava. Sendo assim, repetiu a técnica de firmar o pensamento nele e disse-lhe: “Santiago, por Deus! Perdoai-me por esse descuido! Foi um erro grotesco que pretendo consertar! Tive alguns contratempos difíceis na vida e não honrei esse santo compromisso para contigo. Amanhã mesmo terás a santa missa rezada em teu nome, para que tua alma possa descansar em paz! “
As palavras de Otto caíram como bálsamo sobre o inimigo. Imediatamente ele relaxou o corpo, a expressão facial transmudou-se para serenidade, os braços se soltaram do pescoço. Apenas continuou encarando de forma significativa os olhos daquele, que mais uma vez lhe prometia algo de grande importância.
Ao acordar na manhã seguinte, ouviu de sua esposa:  
— Meu bem, mais um pesadelo heim? Quando vai procurar ajuda?
— Hoje! — disse Otto enquanto engolia um pedaço de pão e o café, às pressas, a fim de não atrasar a visita à Igreja antes do trabalho. Precisava mandar rezar as missas sem falta!
Não foi exatamente a ajuda que a esposa lhe sugeriu, mas deu certo. Otto e Nicinha passaram a ter noites longas e tranquilas, livre de lutas e enforcamentos...
Até que, certa noite, depois de três meses sem pesadelos, Otto acordou abruptamente com uma mulher à beira da sua cama, vestida à moda do final do século XIX, com uma garrucha apontada para ele...