Opinião:Os olhos dos adolescentes

Opinião:Os olhos dos adolescentes
Rubem Alves (1933-2014)




Eu estava adiantado para o compromisso. Fui fazer hora no
    jardim da cidade - cheio de árvores velhas. Assentei-me num
    banco, vagabundo. Aproximou-se um menino com caixa de
    engraxate. “-Vai uma graxinha?” “-Vai”, respondi. Não havia
    mesmo nada a fazer. Começamos a conversar. É bom
    conversar com esses meninos que desde cedo aprendem que,
    se eles não se virarem, não vão ter o que comer. De repente
    ele olhou para um homem que se aproximava. “-Lá vem um
    freguês!”, ele observou. “-Faz tempo que você o conhece?”,
    perguntei. “-Não senhor, nunca vi ele não.” Intrigado,
    perguntei: “-Então, como é que você sabe que ele é um
    freguês?” Ele me olhou espantado, admirado de que eu fosse
    tão burro e desatento. “-O senhor não olhou pros sapatos dele
    não?”

    Eu e ele tínhamos bons olhos. Meus olhos, de quem está com
    a vida ganha, podiam vagabundear. Mas os dele eram olhos de
    caçador. As caças dos engraxates se reconhecem pelos sapatos.

    “O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.”
    (Bernardo Soares). Onças não veem bananas. Macacos não
    veem orquídeas. Gatos não veem telas de Van Gogh.

    Dentre todos os órgãos dos sentidos, os olhos são os mais
    simples do ponto de vista anatômico e funcional. Em tudo se
    parecem com uma câmera fotográfica, como o demonstram
    aqueles desenhos nas salas de espera dos oftalmo. Mas o fato
    é que, contrariando as simplicidades anátomo-funcionais, a
    visão é muito complicada: “não basta abrir a janela para ver os
    campos e o rio. Não é bastante não ser cego para ver as
    árvores e as flores” (Alberto Caeiro).

    O que você vê é o que você quer ver. Meu ofício de
    psicanalista se baseia nisso. O paciente vai contando a sua
    estória, pensando que estou prestando atenção no que ele está
    dizendo. Mas eu estou olhando na direção oposta, tentando ver
    o rosto dele refletido naquilo sobre que ele fala. Igual ao que
    acontece diante do vidro de uma vidraça: a gente vê as coisas
    lá fora mas, prestando atenção, vê o rosto também refletido no
    vidro, como num espelho.

    Vou agora deixar os olhos e começar num lugar
    completamente diferente: a adolescência. Inventei um princípio
    de criatividade: “Ostra feliz não produz pérola”. É preciso que
    haja, dentro da pobrezinha, uma areia, um objeto irritante. Ela
    produz a pérola lisa para se livrar da irritação do grão de areia.
    Os adolescentes são um dos muitos grãos de areia que me
    irritam. São um desafio intelectual. Mistérios. Nenhum dos
    ângulos através dos quais têm sido compreendidos os esgota.
    Biologicamente a adolescência pode ser descrita como uma
    série de transformações anatômicas e hormonais. É verdade.
    Sob um ponto de vista psicológico ela pode ser entendida
    como uma crise que decorre de um descompasso entre os
    processos mentais e os processos físicos. Mentalmente, os
    adolescentes continuam a pensar como crianças. Mas o
    tamanho do seu corpo, agora, impede que os pais apliquem
    sobre eles as técnicas de persuasão e controle que haviam sido
    eficazes quando eles eram crianças. Ao poder da adolescência
    corresponde a impotência dos pais. E por aí vão se
    multiplicando as explicações, todas verdadeiras. Eu mesmo já
    propus uma série de alternativas descritivas, que vão das
    maritacas até Orlando. Faço, agora, conexão entre a
    adolescência e as coisas que disse sobre a visão: percebi que a
    adolescência pode ser também compreendida sob um ângulo
    oftalmológico: a adolescência é uma perturbação do olhar, um
    tipo raro de cegueira: os olhos dos adolescentes não
    conseguem ver cenários.

    Explico-me por meio de uma imagem. É uma excursão. O
    ônibus está lotado. Seu itinerário o leva pelos mais fascinantes
    cenários. Passa pelos sopés de montanhas cobertas de neve,
    atravessa florestas de árvores gigantescas, cruza planícies
    verdes cheias de animais, margeia cenários paradisíacos ao
    longo de praias, atravessa rios cristalinos... A viagem chega ao
    fim. Saem os excursionistas. Adolescentes. Gastaram todos os
    filmes de suas câmeras fotográficas. Reveladas as fotos, vem o
    espanto: nenhuma foto de cenário. Para dizer a verdade, o
    ônibus permaneceu com as cortinas fechadas o tempo todo. As
    fotografias são, todas elas, fotografias de adolescentes
    sorridentes.

    Notei que, para os adolescentes, não importa o lugar para onde
    vão. Os olhos deles não veem cenários. O lugar é apenas o
    cenário onde turma vai se encontrar para representar a mesma
    peça que era representada na cidade de origem. Os
    adolescentes jamais desembarcam deles mesmos. Os seus
    olhos registram uma coisa apenas: a turma. Na verdade, não é
    bem a turma. Seus olhos registram “eu-na-turma”.

    Para isso há uma explicação psicossociológica. Todos nós
    temos uma profunda necessidade de reconhecimento. É
    preciso que o outro me olhe e que eu sinta que o seu olhar está
    dizendo: “Gosto de você. É bom que você exista.” Esta é a
    razão por que o olhar do pai, da mãe, da professora, é tão
    decisivo para a formação da autoimagem da criança. A
    criança fica sendo aquilo que o olhar dos outros diz que ela é. 

    Para a criança, importante é o olhar do pai e da mãe. Na
    adolescência há uma troca dos olhares importantes. Os
    adolescentes querem ser grandes. Por isso o olhar do pai e da
    mãe incomodam. Olhares de pai e mãe são acriançantes. Eles
    desejam que os filhos permaneçam pequenos, que continuem
    vivendo sob a proteção de suas asas. Isso, às vezes por razões
    de sabedoria: sabem que os filhos adolescentes ainda não
    sabem as coisas do mundo. +s vezes por razões neuróticas:
    não querem que seus filhos batam asas... Aí os adolescentes
    fogem do olhar do pai e da mãe. Procuram o olhar dos outros
    adolescentes. Se vocês prestarem atenção perceberão que as
    relações entre os adolescentes, reduzidas à sua condição
    mínima, se resumem em: “Me vejam, me vejam, me vejam”.
    Essa é a razão por que se comportam como maritacas, todos
    gritando o mesmo tempo. Não suportam ficar longe dos olhos
    dos outros. Longe dos olhos, agarram o telefone. A substância
    das conversas entre os adolescentes, ao telefone, não é aquilo
    que eles dizem, mas o fato de que há alguém que ouve. Longe
    dos olhos dos outros, eles se sentem perdidos. Nada mais
    terrível para um adolescente que passar um fim de semana no
    sítio paradisíaco dos pais, na tranquilidade da natureza, na
    beleza dos jardins, no gozo das mordomias - sozinho.

    Eu compreendo que seja assim. Mas tenho dó. O mundo é tão
    bonito. E não faz diferença que seja o pantanal, o litoral, as
    montanhas, o deserto: eles vão para esses lugares mas não
    veem nada. Os cenários não lhes dão prazer. Os lugares são
    apenas um ponto, definido por meio de longitudes e latitudes,
    onde os mesmos olhos e os mesmos rostos que se viram vão
    se ver de novo. No mundo dos adolescentes não há cenários.
    Só há outros adolescentes. Para essa doença não há remédio.
    Ela se cura com o tempo.

‘O Pergaminho’ publica crônicas de Rubem Alves por ter recebido autorização escrita do próprio autor