Opinião:PORTA ABERTA

Opinião:PORTA ABERTA
Rubem Alves (1933-2014)




Havia muitos e-mail à minha espera, a propósito da minha a crônica sobre os telefones celulares. Vocês se lembram que terminei dizendo: “Tenho medo do e-mail. Tenho medo do celular”. Pois um dos meus leitores me sugeria (com uma pitadinha de ironia...) uma fórmula simples de por fim ao meu medo do e-mail: bastava que eu o desativasse. Isso, jamais. Se eu fosse movido a medo há muito teria me mudado para um mosteiro no alto de uma montanha, para fugir do medo que a cidade me dá. Não há dúvidas que a vida transcorre com mais tranquilidade na solidão dos mosteiros. Mas o preço de não ter medo é o tédio. Continuarei com o meu e-mail aberto a todos, mesmo correndo o risco das invasões de intrusos. As alegrias compensam. No tempo das cartas - que ainda continuam válidas quando o que está em jogo é o amor - uma carta amorosa nunca será substituída por um e-mail, pela simples razão de que não é possível por um e-mail debaixo do travesseiro - somente questões graves e compridas mereciam a trabalheira. Com o e-mail, entretanto, ficou fácil dizer coisas leves e rápidas que, no tempo das cartas, não eram ditas.
É o caso dessas deliciosas estórias que me enviaram e que passo a vocês.
Primeira estória: Uns psicólogos resolveram fazer um experimento com macacos. Fecharam cinco macacos dentro de uma jaula. No meio da jaula havia uma mesa. Pendente, sobre a mesa, um cacho de bananas maduras. Para macacos é óbvio que bananas são manjares divinos, que devem ser comidas. Inteligentes, perceberam logo que era simples alcançar as bananas. Bastava subir sobre a mesa. E foi o que fez imediatamente o macaco mais esperto. Subiu sobre a mesa e esticou seus braços para pegar uma banana. Nesse momento os cruéis cientistas, que sabiam que isso iria acontecer, passaram à segunda fase do experimento. Deram um banho de água gelada com uma mangueira nos macacos que ficaram em baixo. O macaco que se preparava para pegar a banana se assustou e desceu. Passado o susto provocado pelo acidente, os macacos voltaram a olhar para as bananas com cobiça, e um outro macaco se aventurou a fazer o mesmo que o primeiro fizera. Novo banho de água gelada nos macacos que estavam no chão. Depois de algumas repetições da mesma cena os macacos, que não eram tolos, perceberam que não se tratava de um acidente. Havia uma relação causal entre tentar pegar uma banana e o banho frio. Na próxima vez que um macaco tentou pegar uma banana eles concluíram: - Lá vem um banho frio... E para impedir que isso acontecesse os outros quatro o agarraram e lhe deram uma valente surra. Desta forma, não levaram o banho de água fria. Sua hipótese estava, assim, cientificamente comprovada. Assim ficaram os macacos, olhando para as bananas mas não se atrevendo a subir na mesa para apanhá-la, por medo do banho frio e por medo da surra. Os sádicos psicólogos retiraram então, da jaula, um dos macacos, e o substituíram por um novo, que nada sabia dos antecedentes. O que é que ele fez ao ver as bananas? Começou a subir na mesa. Os outros quatro imediatamente se atiraram contra ele e lhe aplicaram a surra costumeira. Logo logo, que tudo ignorava sobre o banho de água fria, aprendeu que quem tenta apanhar bananas apanha. Os psicólogos retiraram então, da jaula, um outro dos quatro macacos originais, substituindo-o por um novo. A cena se repetiu. O macaco novo recebeu a surra de praxe, da qual participou ativamente o macaco que o antecedera. E assim foram substituindo os macacos restantes até que, na jaula, ficaram cinco macacos que nada sabiam dos motivos originais de tão estranho ritual, qual seja, o banho de água fria. E o ritual continuou: todas as vezes que um deles tentava pegar uma banana, os outros quatro o surravam. Se os macacos soubessem falar e se alguém lhes perguntasse por que surravam aquele que tentava pegar uma banana, é certo que nenhum deles alegaria o perigo de um banho de água fria, pois nada sabiam a respeito. A sua resposta teria sido: “As coisas têm sido sempre assim, por aqui. Quem tenta apanhar banana apanha...”
A segunda estória me veio dos Estados Unidos: “ Um homem, seu cavalo e seu cão caminhavam por uma estrada. Depois de muito caminhar ele se deu conta de que ele, seu cavalo e seu cão haviam morrido num acidente. Parece que os mortos levam bastante tempo para se dar conta de sua nova condição... A caminhada era muito longa, morro acima, o sol era forte, e eles ficaram suados, com muita sede. Queriam beber água. Numa curva do caminho avistaram um portão magnífico, todo de mármore, que conduzia a uma praça calçada com blocos de ouro, no centro da qual havia uma fonte de onde jorrava água cristalina. O caminhante dirigiu-se ao homem que, numa guarita, guardava a entrada. - Bom dia.., ele disse. - Bom dia, respondeu o homem. - Que lugar é esse, tão lindo?, ele perguntou. - Isso aqui é o céu, foi a resposta. - Que bom que nós chegamos ao céu, o homem disse. - Estou com muita sede... - O senhor pode entrar e beber à vontade, disse o homem indicando-lhe a fonte. - Meu cavalo e meu cachorro estão com sede também, o caminhante explicou. - Lamento muito, disse o guarda. Aqui não se permite a entrada de animais. O homem ficou muito desapontado porque a sua sede era grande. Mas ele não beberia deixando seus amigos com sede. Assim, prosseguiu o seu caminho. Depois de muito caminhar morro acima, com sede e cansaço multiplicados, ele chegou a uma sitio, cuja entrada era marcada por uma porteira velha semi-aberta. A porteira se abria para um caminho de terra, com árvores dos dois lados que lhe faziam sombra. À sombra de uma das árvores um homem estava deitado, cabeça coberta por um chapéu. Parecia que estava dormindo. - Bom dia, disse o caminhante. - Bom dia, disse o homem. - Estamos com muita sede, eu e o meu cavalo e o meu cachorro... - Há uma fonte naquelas pedras, disse o homem fazendo um gesto com a mão. - Podem beber... O homem, seu cavalo e o seu cachorro foram até a fonte e mataram a sua sede. - Muito obrigado, ele disse ao sair. - Voltem quando quiserem, respondeu o homem. - Como é o nome desse lugar? - O nome desse lugar é ‘céu’...- Céu? Mas o homem na guarita ao lado do portão de mármore disse que céu era lá! - Aquilo não é o céu. Aquilo é o inferno. O caminhante ficou perplexo. - Mas então, ele disse, essa informação falsa deve causar grande confusão. - De forma alguma, ele respondeu. - Na verdade, eles nos fazem um favor. Porque lá ficam aqueles que são capazes de abandonar os seus melhores amigos...
Pois é: continuarei com o meu e-mail aberto para quem quiser, inclusive para seus cavalos, cachorros, periquitos e outros bichos... Todos os amigos são bem-vindos.