PLENITUDE DO SER

PLENITUDE DO SER
(Antônio Marcos)




Hoje eu acordo com o desejo de ouvir aquela música que nunca fiz. É uma melodia que não existe no mundo, apenas em algum canto silencioso da minha mente; uma canção que eu sei que jamais farei. Mas hoje — exclusivamente hoje — eu me permito essa estranheza.

Sinto uma vontade urgente de beijar quem nunca me viu, de acariciar um corpo que nunca desejei. Existe algo libertador em dizer “te amo” sem as amarras do pertencimento, apenas pelo prazer de lançar o sentimento ao mundo. É um dia de abrir as mãos e soltar os pássaros que, embora livres por natureza, eu ainda insistia em manter presos. Em contrapartida, permito que voem em revoada todos aqueles pássaros que eu nunca ousei prender.

Não passo de hoje sem sentir o perfume de alguém por quem nunca me interessei. E que as pessoas que me veem passar também sintam o meu olor, que me percebam presente, senhor do meu caminho.

Porque amanhã... sim, amanhã, enquanto aquela música impossível ressoa, eu estarei pronto. Vou erguer essas duas taças — agora brilhando sob a luz de um novo sol — e farei um brinde solitário e honesto. Vou brindar ao fim do nada que eu fui. Amanhã, o vazio se torna transbordamento. Um novo homem surge, liberto de imposições, livre para viver... plenamente.