Revisitando as peculiaridades de ‘O buraco e as negociatas’
Na minha infância tive a oportunidade de estudar em uma escola que, na época, foi revolucionária e referência na área; a Escolinha Branca de Neve, da tia Rita, tia Nelma e tia Vânia. Era uma época diferente e a gente podia ir a pé para a escola. Guardo muitas lembranças boas daquela época, apesar da pouca idade (5 anos).
No recreio, tínhamos um grande quintal para brincar, com caixa de areia, árvores e tudo mais. Foi justamente nessa caixa de areia que eu estava fazendo um grande buraco quando um garoto, hoje grande empresário em Formiga, chegou para mim e perguntou se podia ficar com aquele buraco para ele. Meio sem paciência respondi que não, que tive muito trabalho para fazer aquele buraco. Daí ele propôs trocar um elefantinho de borracha que estava com ele pelo buraco. Como o brinquedo era bem bonitinho, fiz a troca. Nas palavras de hoje, diria que fiz um negócio da China. Saí com o brinquedo em punho e o garoto ficou se esbaldando dentro do buraco.
O garoto se tornou um grande empresário não foi à toa. Não trilhou o caminho suspeito da negociata que fez comigo, claro, e nem eu. Muito tempo depois me lembrei de que havia na escola vários brinquedinhos em prateleiras para a gente levar para o recreio, e devolver depois. O elefantinho em questão era da escola!!! Ora, concluí isso muito tempo depois, comentando o caso com amigos e aí eu é que ri mesmo. Embora numa atitude inocente, eu e o dito cujo fizemos uma negociata idêntica às que ocorrem desse país, onde os negócios mais exclusos e mirabolantes são feitos na maior cara-de-pau.
A tia Rita que me perdoe, mas não vou devolver o elefantinho dela. Eu brinquei com ele, minha filha brincou com ele, meu filho brincou com ele. Pasmem, 57 anos depois do “negócio do século” ainda tenho o elefante!
Vou contar duas outras histórias lembram em parte a mecânica do “causo” que contei. Utilizarei nomes fictícios. Na primeira, o Zé fez uma rifa (hoje é “Ação entre amigos”, ai, ai!) de um som 3 em 1(coisa de época) e só depois de vender todos os bilhetes é que ele comprou o som. Na segunda, o Antenor comprou bem barato um carrinho de mão sem a roda. Daí ele fez uma rifa do carrinho e vendeu todos os bilhetes. O cara que ganhou a rifa aprontou o maior escarcéu por causa da roda e daí o Antenor, honesto e justo como todos de sua família, devolveu o dinheiro dele, acalmando a fera. Ora, não parece ilegal, mas que tem coisa muito errada nessas histórias todas, isso tem.
Pois é, amigos, existem negócios de boa-fé e negócios de má-fé. Acredito que da minha parte não foi totalmente de boa-fé porque achei que estava levando muita vantagem. Os outros que citei são inocentes aplicações de raciocínio em benefício próprio, sem prejuízo de outrem. Já as negociatas nesse país são um caso para um pelotão de fuzilamento. Da minha parte, aprendi com meu pai que, para o negócio ser bom, tem que ser bom para todas as partes envolvidas, pois só assim ele se repete!
** Talvez eu me encontre com meu amigo de infância e proponha trocar as torres da Telemar pelo Country Clube...
Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor pesquisador do Unifor-MG e coordenador do laboratório de mineralogia
e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br

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