Rotina com Defeito de Fábrica
Rotina com defeito de fábrica. Do dia a dia de cada dia. Assim tropeça a humanidade — em si mesma, nos horários, nas senhas, nas filas, nas ausências e nas pequenas impaciências que roem, aos poucos, o verniz da serenidade.
Não é de hoje que o cotidiano aprendeu a testar os nervos humanos com maestria. A lâmpada que se apaga justamente no instante em que mais precisamos de luz. O celular que morre com 2% de bateria quando estamos para receber uma notícia importante. A conta bancária que insiste em provar que o salário é apenas um breve visitante. E, no meio disso tudo, o coração — esse velho resistente — tentando manter o compasso. Ih, esqueci de tomar o Enalapril.
Há dias em que parece que o universo conspira num leve sarcasmo da vida: o chuveiro resolve aposentar-se em plena manhã de inverno; o fogão dá sinais de exaustão no domingo do almoço em família; o carro, que estava ótimo ontem, decide não pegar hoje. São os tais problemas eventuais — pequenos, banais, mas onipresentes.
Eles não pedem licença. Entram pela porta dos fundos da rotina, mexem nas gavetas, bagunçam o humor e, quando percebemos, já estamos discutindo com o vento — e é justamente aí que mora a lição: viver é aprender a conversar com o imprevisível sem perder o tom.
A vida não se faz só de grandes tragédias ou grandes alegrias. Ela se faz, sobretudo, de minúsculas interferências — o copo que cai, a ligação que cai, a fé que quase cai, mas não cai. São essas pequenas quedas e levantamentos que dão sentido à jornada.
No fim, talvez o segredo esteja em aceitar o imprevisto como parte do roteiro. Rir do que não se pode controlar, respirar fundo diante do que se repete e seguir em frente — um pouco mais paciente, um pouco mais humano.
Luís Fernando Veríssimo, se nos escuta do alto de sua fina ironia, haveria de concordar: fomos projetados com um leve defeito de fábrica. Peças que sobram. Ou faltam.
No fundo, somos todos isso — engrenagens tentando caber no mesmo relógio da Criação. E, ainda assim, entre engrenagens desiguais, a vida encontra um jeito de seguir funcionando. Basta um gesto simples, um olhar que compreende, uma palavra que acalma — quem sabe seja isso o que nos mantém de pé, vivos — a esperança mansa de que, apesar das falhas, o mundo ainda pode dar certo.

Diagramador 4 















