Segura minha mão, querida
— Bom dia! Muito bem, muito bem... quem é que está aqui me aguardando...?
Toletinho(*) vinha do seu escritório para a sala de atendimento ainda com o cigarro aceso na mão. Somente percebeu isso quando viu a expressão de horror no rosto de sua auxiliar, Lucília, pois esta detestava quando ele fumava dentro do consultório, especialmente quando o paciente já estava posicionado na cadeira de atendimento. De vez em quando acontecia... fazer o que? Discretamente, o doutor apagou o cigarro no cinzeiro que havia ganhado de presente de sua esposa, onde estava escrito em letras bem redondas: HOJE VOCÊ ME ACENDE, AMANHÃ TE APAGO. Ele sempre fazia uma careta de contrariedade quando via aquilo. E ficou mais contrariado quando identificou o paciente que iria atender a seguir.
— Raimundo Nonato...? Ora, ora... você de novo aqui? Como vai? — perguntou Toletinho espantado com a presença do homem e mais ainda ao notar que havia uma mulher ao lado dele segurando sua mão.
— Bom dia, doutor Toletinho, sou eu de novo... — respondeu o paciente com os olhos meio cerrados e a voz mole. E hoje trouxe a minha esposa, a Agnes...
— Ah sim, estou vendo, como vai D. Agnes? — perguntou Toletinho olhando para Lucília sem entender porque a mulher estava ali naquela situação.
Mas na verdade, ele entendia sim. Lembrava-se muito bem da tragédia ocorrida há cerca de 3 meses, se não estava enganado. Raimundo Nonato apareceu para uma consulta de urgência queixando severa dor de dente. Ao examiná-lo, Toletinho constatou a necessidade de extração de vários dentes em situação crítica, e assim informou ao paciente. Ao receber a notícia, Raimundo ficou apavorado. Suando copiosamente, disse ao dentista que era medroso e tinha pavor de tratamentos odontológicos, principalmente de arrancar dentes.
— Ah, claro, isso justifica a situação caótica em que eles se encontram. Veja bem, caríssimo, você já é adulto, e medo de dentista é coisa de criança. Afinal, você é um homem ou um saco de batatas? — Toletinho disse isso dando uma boa risada.
“Acho que um saco de batatas...”, pensou o paciente, mas não respondeu nada. E marcaram a data da cirurgia.
No dia da intervenção, Raimundo, que era bem moreno, estava branco. Nitidamente apavorado. Deitou-se na cadeira odontológica fazendo o sinal da cruz várias vezes. Toletinho notou o nível de stress e enquanto empurrava o êmbolo da seringa de anestesia, naquele conhecido gesto que os dentistas fazem para testar a saída do líquido, disse:
— Calma, meu amigo, fique tranquilo, já, já você estará livre de mim e operando suas máquinas na rodovia!
Para o espanto do dentista e de sua auxiliar, o paciente, ao ver a agulha porejando anestésico, arregalou os olhos e de um salto, saiu correndo da cadeira, procurando a saída. Correu para a porta, estava trancada. Tentou sair pela janela, tinha grades. Achou a porta dos fundos, mas ali não havia saída, apenas a área de serviço. Voltou e começou a gritar dizendo que precisava ir embora. Lucília estava paralisada com a cena. Toletinho, num piscar de olhos pegou a chave, abriu a porta e empurrou o aterrorizado paciente para a sala de espera. Este saiu em desabalada carreira, gritando:
— Depois virei acertar a conta, doutor!
“Ah bom, pensou Toletinho, menos mal”. Mas não foi. Também por isso o dentista estava espantado. O apavorado paciente não havia pago a consulta e ainda por cima, voltou para mais uma intervenção e, detalhe: com a esposa segurando a mão dele. O dentista suspirou, pensando, “Deus nos proteja a todos”.
Conversa aqui, conversa dali, Toletinho examina a radiografia e a boca do paciente. Explica tudo, pergunta se está tudo bem.
— Está, doutor, dei um bom calmante pra ele — disse D. Agnes — Vá em frente, hoje vai dar certo, fé em Deus!
Enquanto Toletinho iniciava o procedimento, deu uma discreta piscadela para sua auxiliar, que significava “reza! ”. Ao que foi atendido prontamente. Lucília tocou o crucifixo pendurado no peito e rezou.
A intervenção transcorria aparentemente dentro da normalidade, com Raimundo de olhos bem fechados e completamente largado na cadeira. Parecia estar dopado. Toletinho trabalhava o mais rápido e eficiente possível, munido de fones de ouvido, pois gostava de trabalhar escutando suas “modas” preferidas, da dupla Tião Carreiro e Pardinho. E naquele dia, merecia uma especial: “Pagode em Brasília” (sem trocadilhos, claro). Já quase terminando a cirurgia, apenas aguardava sua assistente preparar o material de sutura, cantarolando “quem tem mulher que namora, quem tem burro empacador”...
De repente, mesmo portando os fones, ouviu um baque assustador, barulho de gente caindo. Virou-se e deu com a cena inusitada: ao lado do esposo, Raimundo, o qual dormia profundamente, lá estava D. Agnes, desmaiada e esborrachada no chão.
Depois dessa, Toletinho decidiu que aquele dia precisaria encerrar “entornando um querosene” com os amigos cachaceiros no “Bar-baridade”, o boteco do Miguelito.
Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua
(*) Conheça o personagem Toletinho na Edição número 6335, de 17 de Abril de 2024, de O Pergaminho, ou no livro da autora, “PROESIAS”.

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