Sobre dicionários e necrotérios

‘Se vocês quiserem fazer amor com as palavras deixem as leis da gramática de lado e aprendam a música das palavras’

Sobre dicionários e necrotérios
Rubem Alves (1933-2014)




Essa crônica é dedicada aos jovens que têm de aprender as leis da gramática. E eu o faço na esperança da ressurreição das mortas. Sim, das mortas, no feminino, como ficará claro.
Se o conhecimento científico de anatomia fosse condição para se fazer amor, os professores de anatomia seriam amantes insuperáveis. Se o conhecimento acadêmico da gramática fosse condição para se fazer literatura, os gramáticos seriam escritores insuperáveis. Mas essa não é a verdade. Não me consta que o Kama-Sutra tenha sido escrito por um professor de anatomia e não conheço gramático que tenha feito literatura.
Na verdade, os gramáticos e os escritores são inimigos irreconciliáveis. Gramática se faz com palavras mortas. Literatura se faz com palavras vivas.
Eu sei escrever. Mas confesso, sei pouquíssimo de gramática. A minha ignorância da gramática é de tal ordem que freqüentemente (não sei a razão desse trema sobre o “u”: nenhuma pessoa que fale português iria ler “frekentemente”) erro na simples grafia das palavras e ignoro as regras de acentuação. Os cultores da gramática se horrorizam e, perturbados pela minha ignorância e movidos pelo mais puro sentimento de amor tratam de me corrigir, certamente para evitar que eu passe vergonha por ser assim, tão despudoradamente, ignorante dos saberes gramaticais. Houve mesmo um senhor que, com paciência teologal, me enviava longas missivas em que listava todos os meus erros, oferecendo-me detalhada explicação das regras que eu estava desobedecendo. A sua persistência me assombrava. Mas o que mais me assombrava era o fato de que nunca, jamais, ele disse qualquer coisa sobre o conteúdo mesmo das minhas crônicas. O seu amor pela gramática o tornava insensível à literatura. Pensei mesmo em escrever uma crônica sobre o assunto, que seria construída em torno de uma estorieta que seria mais ou menos assim: eu fazia uma comidinha e convidava alguns amigos. Todos eles comiam e diziam que a comida era boa. Isso me dava grande alegria. Com uma exceção: um dos comedores, intruso que não fora convidado, limpava o prato sem dizer palavra sobre o gosto da minha comida, mas reclamava que ela havia sido servida num prato lascado. A obsessão com as regras da gramática pode nos tornar insensíveis ao gosto das palavras. 
O que sei sobre a língua, não aprendi nos compêndios de gramática. A língua é, para mim, essencialmente, uma experiência sonora. Música.
Desrespeito, sabendo que estou desrespeitando o que dizem os cientistas da língua. Invoco o Manoel de Barros: “Uma espécie de canto me ocasiona. Respeito as oralidades. Eu escrevo o rumor das palavras. Não sou sandeu de gramáticas” (Sandeu = idiota, pateta). Escrevo “Me parece” quando a regra é que não se deve começar uma frase com pronome oblíquo. Jamais respeito “tmeses” – vulgarmente chamadas “mesóclises”: contar-vos-ei. Tmeses (dei pra falar difícil) me parecem um homem barrigudo, vestido de fraque alugado, com gravata borboleta, em casamento chique: chique e ridículo. De agora em diante, quando me perguntarem por que escrevi ao arrepio das leis ditadas pelos gramáticos, responderei: “Fi-lo porque qui-lo”.
“História não quer se tornar história”: essa frase não é falsa nem verdadeira. Ela simplesmente não tem sentido. Essa frase não me faz pensar nada. Mas seria assim que a frase filosófica com que Guimarães Rosa inicía o Tutaméia apareceria, depois de corrigida pelo revisor, obediente à autoridade do Aurélio. O que o Guimarães Rosa escreveu é “Estória não quer se tornar história”. Já briguei muito com revisores por causa dessa palavra “estória”. O meu Aurélio, velho, dizia que ela existia. Mas o Aurélio novo diz que ela não existe. No verbete “estória” está escrito:
“Ver história;. Recomenda-se apenas a grafia história, tanto no sentido de ciência histórica quanto no de narrativa de ficção, conto popular e demais acepções.” “Estória” não existe; só existe “história”. É o mesmo que dizer que “banana” não existe e que toda vez que se quiser dizer “banana” há de se dizer “laranja.” Parece que os gramáticos, vivendo no mundo das palavras, se esquecem da existência das coisas. Da mesma forma como banana e laranja são coisas diferentes com nomes diferentes, estória e história são coisas diferentes que exigem nomes diferentes. “Recomenda-se”: “quem” recomenda? O sujeito está indeterminado. Foram alguns gramáticos que, reunidos, tomaram a decisão de assassinar “estória” e depois se esconderam atrás do sujeito indeterminado. Mas Guimarães Rosa não perdoa os assassinos e de dentro da Tutaméia continua a denunciá-los: “Estória não quer se tornar história”. Gramáticos não levam a sério o que dizem os escritores.
Com sua decisão, querem cortar as asas do Guimarães e as minhas. “Estória” e “história” são mais diferentes que bananas e laranjas. “História” é entidade do mundo de fora, o que aconteceu no tempo e não acontece nunca mais. “Estória” é entidade do mundo de dentro, não aconteceu no tempo porque acontece sempre. “História não quer se tornar história”: esse nonsense é uma contribuição dos gramáticos à literatura. 
Revendo as correções que uma revisora fizera num texto meu, segundo o Aurélio, encontrei essa frase divertida: “... e os anus fazendo os barulhos que lhe são característicos...” Que é que você conclui? Que estou escrevendo sobre gases fétidos barulhentos expelidos pelo orifício terminal do intestino. Não é nada disso. Falo sobre os barulhos que fazem as aves “anús” que, segundo o Aurélio, não têm assento. A palavra que tem acento, talvez por estar localizada no assento, é ânus... Por via das dúvidas ponho assento agudo no “u” dos anús. Não quero que pios de anús sejam confundidos com pums.
E agora, meu conselho aos jovens: se vocês quiserem passar no vestibular, estudem gramática, empreguem mesóclises, escrevam “fi-lo porque qui-lo” e não leiam literatura. Mas se vocês quiserem sentir o delírio da leitura, se quiserem fazer amor com as palavras e experimentar os orgasmos da língua, deixem as leis da gramática de lado e aprendam a música das palavras. Literatura é música. Leiam o Manoel de Barros. Os livros dele não existiriam se tivessem de passar por revisores armados de Aurélio. Haverá título mais doido que O Livro das Ignorãnças? O revisor corrigiria para O Livro das Ignorâncias... 
A poesia começa com a transgressão. Dito pelo Manoel de Barros: “Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas. Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito. Eu pensava que fosse um sujeito escaleno. Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre disse. Ele fez um limpamento em meus receios. O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas... E riu. Você não é bugre?, ele continuou. Que sim, respondi. Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas. Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os araticuns maduros. Há que apenas saber errar bem o seu idioma. Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramática.” E mais: “A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.” Literatura é feito a casa. Casa arrumadinha emburrece, é mesmice, cada coisa em seu lugar, a gente fica do mesmo jeito sempre.
Casa boa é cheia de surpresas. O gramático está para a linguagem da mesma forma como a dona da casa está para a casa arrumada. Mais sobre a terapia literária: “Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras. Sou formado em desencontros. A sensatez me absurda. Os delírios verbais me terapeutam.”
Inventaram um crime atroz, fazer resumo das obras literárias que vão cair no vestibular. E até se ganha dinheiro com livros tais. Ah! Queria mesmo é ver o resumo que fariam das escrituras do Manoel de Barros...
Como disse: gramática é necrotério, sala de anatomia, as palavras mortas sob o bisturi da análise. Literatura são as palavras vivas, fazendo o que elas bem desejam, à revelia de quem escreve. Por isso disse que eu esperava a ressurreição das mortas, no feminino. As mortas são as palavras, em estado de dicionário. Mas aí eu pergunto: Quem sentirá vontade de fazer amor fazendo a necrópsia da amada morta? 

‘O Pergaminho’ publica crônicas de Rubem Alves por ter recebido autorização escrita do próprio autor