Tempos de bicicleta
Nunca fui uma ciclista exemplar. Mas sempre fui famosa, com um título não muito honroso: a mais medrosa de todas.
Aprendi a andar de bicicleta ainda criança. Tive muito medo naquela época. Inclusive, o medo permanece até hoje. Medo de cair, medo de ser atropelada, medo de trombar com algo ou alguém quando virasse uma esquina.
Portadora de um equilíbrio limitado ao mínimo necessário para viver, e não suficiente para brilhar nas ciclovias, nem subir em alturas exuberantes, frequentar parques com brinquedos estúpidos, nem pular de ponta dentro d’água, nem deixar de sofrer na escada rolante e, tudo isso somado a uma boa dose de autopreservação, — que para muitos se chama medo — sempre fui motivo de chacota entre amigos e primos que se reuniam para uma alegre tarde de aventuras. Se fosse hoje, eu estaria encaixada na categoria vítima de “bullying”, e, certamente a turma da patrulha moral viria me salvar com textos incríveis através dos meios de comunicação. No entanto, naquela época dourada, era só “implicância”. E não havia turma da patrulha moral de plantão ainda. Mas isso não chegava a ser um problema, pois, para cada bullying, haveriam represálias: respostas desaforadas, perseguições implacáveis, apelidos, tapas, puxões de cabelo etc. Fazia parte. Ninguém morreu, ninguém foi preso, ninguém ficou brigado. Tudo bem. Apenas dentes quebrados, joelhos, cotovelos e um pouco de autoestima arranhados. Às vezes ganhávamos, às vezes perdíamos. Tudo entrava na súmula.
Medos à parte, traumas à parte, eu jamais havia caído de cima de uma bicicleta. Já adulta, inclusive, já velha como estou agora, tinha o hábito de pedalar aos domingos ao lado de minha cadela, Brisa, que nessa época pesava quarenta quilos bem distribuídos num corpanzil de Labrador. Certa ocasião, em que desfrutávamos essa deliciosa aventura entre uma medrosa e uma doidona (eu medrosa e ela doidona, claro) ela parou de trotar ao meu lado e começou a trançar de um lado para o outro na minha frente. De forma que, precisei diminuir drasticamente a velocidade da bicicleta para não atropelá-la, a ponto de não ter mais como manter a bicicleta em equilíbrio. Quando tentei apoiar-me no chão, ela passou por debaixo do meu pé. E eu caí. Naquele dia entendi o que o excepcional físico e matemático alemão, Albert Einstein, quis dizer quando escreveu que, “viver é como andar de bicicleta, para manter o equilíbrio você deve continuar se movendo. ”
Se você sabe andar de bicicleta, também sabe que quando a velocidade da bicicleta diminui, é necessário realizar manobras para mantê-la rodando em equilíbrio e quando se para de pedalar, devido a vários fatores ligados às leis físicas (força gravitacional, inércia, primeira, segunda e terceiras leis de Newton), a bicicleta não consegue se manter em pé sem o movimento. Nem precisa ser um estudioso da Física teórica para conhecer esse fato, qualquer criança tem consciência intuitiva disso.
Brilhante como sempre, o grande físico comparou a vida com um passeio de bicicleta: é preciso movimento para manter a vida equilibrada.
Andar de bicicleta é viver. Para muitos, viver é quase que automático. Sobe-se na bicicleta, começa-se a fazer força sobre o pedal, toma-se uma certa velocidade e vai... vai.... tudo no automático. De repente, aparece um cachorro trançando na nossa frente, você tenta desviar, não consegue, precisa diminuir o ritmo até quase parar, mas não pode parar de movimentar senão a bicicleta tomba e você cai. Assim é viver. Tentar equilibrar a bicicleta a cada desafio representa nosso esforço de crescimento. Às vezes precisamos acelerar para manter a vida mais dinâmica, ou para conseguir superar uma grande dificuldade. Em outras ocasiões, precisaremos diminuir o ritmo para harmonizar com alguma necessidade. Se você acelerar demais corre o risco de não conseguir frear. E você cai. Ao pedalar a bicicleta da vida haverão movimentos reflexivos, automatizados, claro, mas a maioria deve ser consciente, pois a mente, é a condutora da vida. Ela é a ciclista, chegar ao destino é a sua meta. O equilíbrio vem através de escolhas conscientes. Por isso, talvez, uma pequena dose de medo em equilíbrio — nem que seja medo do código penal (risos) —seja importante ainda, até que todas as mentes saibam equilibrar bem suas bicicletas.
Quando esse dia chegar, todos vamos estar em movimento sem cair e sem atropelarmos uns aos outros. Com ou sem Brisa...

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