TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

AC de Paula (de São Paulo)

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor




Nada é culpa minha. Nem sua. Nem nossa. A culpa é do sistema —essa entidade invisível, onipresente, que acorda para avisar o galo que é hora de cantar! Que acorda antes do despertador, pauta o telejornal, e dorme depois do noticiário. O sistema controla tudo. O preço do café, o humor da segunda-feira, a queda do cabelo, o Wi-Fi que falha justamente na reunião importante e até o signo errado no mapa astral.

Perdeu o emprego? Sistema. Perdeu o amor? Sistema. Perdeu a chave de casa?  Perdeu a vergonha? Sistema com certeza, pois ele anda muito interessado em trancar destinos. Segundo os catedráticos e especialistas de mesa de bar, formados na faculdade das calçadas da vida, o sistema se infiltra no pão francês, manipula algoritmos, se infiltra nas postagens das redes sociais, troca o sal pelo açúcar e ainda chama isso de livre arbítrio. Dizem até que ele mada prender, manda soltar, e pasmem, até faz chover!

 O sistema é tão poderoso que consegue ser de direita, de esquerda, liberal, conservador e contraditório ao mesmo tempo —uma espécie de camaleão ideológico com pós-graduação em confusão com especialidade em caos. Quando convém, o sistema oprime. Quando aperta, o sistema protege. Quando falha, o sistema terceiriza a culpa. E quando funciona, é mérito individual, claro. Afinal, nem o sistema é de ferro.

 O sistema é culpado até pela falta de leitura. — “Eu até lia, mas o sistema não deixou.” É responsável pelo atraso do trem do meio-dia, pela dieta que começa amanhã, pela vela da promessa que apagou antes do tempo, e pela consciência tranquila de quem nunca se responsabiliza por coisa alguma.

 Mas há um detalhe inconveniente que as teorias conspiratórias ignoram: o sistema não se mantém sozinho. Ele precisa de gente. Da gente! Gente que repete, que se acomoda, que aponta o dedo sem sujar as próprias mãos. O sistema adora esse jogo. Enquanto todos brigam entre si, ele troca de nome, muda a fachada e segue operando no horário normal, sob a mesma direção.

 E assim seguimos, denunciando o sistema em posts inflamados, combatendo o sistema no sofá, entre uma breja e outra, revolucionários de Wi-Fi com bateria carregada e ação em modo avião. Porque enfrentar o sistema de verdade dá trabalho. Exige autocrítica, perda de conforto e a dolorosa constatação de que nem tudo é conspiração —algumas coisas são escolha.

 No fim, o sistema agradece. Quanto mais ele é culpado por tudo, menos alguém se responsabiliza por algo. E assim, soberano e discreto, o sistema reina —não porque é invencível, mas porque ninguém quer, de fato, tirar a coroa da própria desculpa. Afinal, iam colocar a culpa em quem?