Terríveis perguntas de final de ano
Vejam bem, a Terra já está concluindo mais uma de suas incríveis voltas em torno do Sol. Coisa corriqueira, a qual os cientistas chamaram de “ano”. Todo ano tem isso, de acabar um e começar outro. Tudo normal. Clichê. Então resolvi fechar o ano nesta coluna com mais um clichê: revéillon, essa palavrinha sem-vergonha usada para descrever a festa de passagem para o ano novo. Ao que parece, significa “acordar” ou “reanimar”, em sentido figurado. Assim, o réveillon é o despertar do novo ano.
Oportunamente, terminei a leitura da excelente obra “Antes que o café esfrie”, do japonês Toshikazu Kawaguchi, na qual o autor relata a existência de uma cafeteria centenária em Tóquio (e também em Hakodate), Japão, onde se pode viajar no tempo, (passado ou futuro) e encontrar pessoas para objetivos diversos. No universo ficcional de Kawaguchi, há um elemento narrativo muito interessante, um livro chamado “Livro das 100 perguntas”, cuja utilidade é provocar reflexões, conectar histórias e ajudar a criar uma atmosfera melancólica. As cem perguntas do livro, com temas variados, poderão acarretar alguns dilemas éticos e cada uma vem com apenas duas opções de respostas, e sempre nestes termos: o que você faria se o mundo fosse acabar amanhã?
Acredite, o livro incomodou-me. Por isso, caminharei por aqui trazendo algumas poucas questões fictícias do incrível “Livro das 100 perguntas”, tentando incomodar a todos que lerem esta crônica. Não é por vingança (risos), é por compaixão. Kawaguchi, empreste-me o livro e perdoe-me as interpolações, ok? E quanto a você, leitor, reflita nos porquês e para quês, e responda com a máxima honestidade. Vamos lá:
Pergunta nº 1: Você está brigado com alguém, nutrindo ódio pela pessoa. O que você faria se o mundo fosse acabar amanhã? Opção 1: Eu me reconciliaria com a pessoa. Opção 2: Eu não me reconciliaria com a pessoa, não perderia tempo.
Pergunta nº 2: Você está com fome e ganha um delicioso jantar de presente, mas em pouca quantidade. Há pessoas passando fome à sua volta. O que você faria se o mundo fosse acabar amanhã? Opção 1: Eu comeria meu jantar sozinho. Opção 2: Eu convidaria pessoas famintas para jantar comigo.
Pergunta nº 3: Você sabe sobre um segredo que poderia fazer toda a diferença na vida de uma pessoa, se ela soubesse. O que você faria se o mundo fosse acabar amanhã? Opção 1: Eu contaria o segredo para a pessoa. Opção 2: Eu não contaria o segredo para a pessoa, não perderia tempo.
Pergunta nº 4: Você prometeu a um amigo que cuidaria de algo muito importante para ele, mas o mundo vai acabar em poucas horas e você prefere passar esse tempo com sua própria família. O que você faria se o mundo fosse acabar amanhã? Opção 1: Eu cumpriria a promessa que fiz a meu amigo. Opção 2: Eu não cumpriria a promessa e passaria esse tempo com minha família.
Pergunta nº 5: Você vê alguém cometendo um crime contra outra pessoa. Você interviria correndo o risco de sofrer no seu último dia? O que você faria se o mundo fosse acabar amanhã? Opção 1: Eu interviria e correria o risco. Opção 2: Não, eu não interviria e nem correria riscos.
Pergunta nº 6: Você descobre hoje, que o mundo acabará amanhã de forma indolor, mas a população geral ainda não sabe. Você contaria a verdade, causando pânico, caos e talvez violência nas últimas 24 horas? Ou manteria o segredo para que as pessoas morram em paz, mas privadas da chance de se despedirem ou de tomarem uma última decisão consciente? Opção 1: Eu contaria sim. Opção 2: Não, eu não contaria.
Pergunta nº 7: O mundo vai acabar amanhã, porém, surgiu uma possibilidade de que exista um bunker ou uma cura de última hora, mas que só comporta 1% da população e você recebe a oportunidade de salvar uma pessoa além de você. Quem deve ser salvo?
Opção 1: Eu salvaria...?
Opção 2: Eu salvaria...?
Pergunta nº 8: Você mora num país que vive um cenário onde a política, ao invés de ser a ferramenta para resolver conflitos, tornou-se a própria fonte deles, levando a população à exaustão, sendo que a polarização transbordou e se instalou nas famílias e círculos de amizade, provocando rejeição mútua e criando um ambiente de tensão social onde o diálogo básico se tornou um campo minado. O que você faria se o mundo fosse acabar amanhã?
Opção 1: Eu...
Opção 2: Eu...
Terríveis perguntas. Paremos por aqui, não temos mais espaço.
Aposto que você está suspirando de alívio, pois sabe que o mundo não vai acabar, não? Pois saiba que nenhum de nós está isento em precisar responder a este tipo de pergunta que incomoda. Que tal fazermo-nos muitas delas, diariamente?
Feliz ano novo...

Diagramador 4 














