Uma mágica e tanto
Anísio Cláudio Rios Fonseca (de Formiga/MG)
Durante o tempo em que estudei na UFLA, na cidade de Lavras, encetei diversas amizades que duram até hoje. Quase todos os meus amigos de lá são músicos e quando a gente se reunia em locais diversos, era aquela festa. Grande parte da minha cultura musical foi adquirida com eles. Quase todos tocavam em conjuntos, sendo que um destes conjuntos chegou a tocar aqui em Formiga na década de oitenta, no lendário Carlitos. Posteriormente este conjunto fez muito sucesso em países europeus, mesclando rock progressivo de extrema qualidade com outros ritmos, mas isso já é outra história.
Era costume a turma vir de Lavras para cá nas férias, onde íamos todos para a fazenda de minha família. Instrumentos nas mãos, muita farra e diversão. Um destes amigos tinha cabelos bem longos e vistosos e foi confundido com o Andréas Kisser do conjunto Sepultura por muitos, tendo chegado a distribuir alguns autógrafos só de gozação.
Na fazenda as atividades se dividiam entre fazer a comida, pescar, tocar muito e beber todas. Para uma inovação culinária, minha mãe consentiu que matássemos um galo para cozinhar, mas era impossível pegar o bicho, pois vivia solto e fava muito trabalho. Peguei meu arco e duas flechas. Descobrimos que o galo estava numa travessa de madeira no curral. Aproximei-me o máximo que pude e disparei o arco, sob o olhar atônito dos meus amigos. A flecha pegou bem no pescoço do galo e a ponta de madeira ficou atravessada, pois deve ter batido na madeira e se quebrado. O galo pulou dali e se embrenhou na capineira. Já estava anoitecendo. Entrei ali para achá-lo. O capim estava com uns três metros e meio de altura e muito escuro no meio dele. O Itamar, companheiro que curava ressaca com vodka, começou a bater numa moita dizendo que era o galo. O galo saiu logo atrás dele e morreu logo depois. Cozinhamos e fizemos nosso banquete, onde até o crânio de um cão que possuíamos e havia morrido há muito decorou a mesa (depois de muito bem lavado).
A mágica? Puxa vida, me empolguei tanto com estas peripécias que me esqueci. Um amigo fazia bons truques com cartas e nós nunca conseguíamos descobrir como ele fazia. Só pra zoar, pedi o baralho. Não entendo nada disso, era só pra zoar mesmo. Embaralhei um tempão e depois entreguei o baralho para um deles. Falei para embaralhar mais. Virei de costas, o mandei escolher uma carta e embaralhar de novo. Segurava pra não rir, pois estava fazendo hora com a cara deles. Peguei o baralho, embaralhei mais, cortei e, sem ver a carta, eu a mostrei a todos e disse: É esta! Ao contrário da gozação e uns tapas que eu esperava, todos ficaram impressionados. Pasmem, mas a carta era a que ele havia escolhido. Pelejaram para que eu contasse, mas minha resposta era a mesma: Um mágico nunca revela seus segredos! Só agora essa performance de prestidigitação é revelada ao público. Foi uma coincidência única.
Diversas coisas divertidas aconteciam, sempre com alguma trilha sonora, pois ter amigos músicos é muito bom. Nós nos dávamos o luxo de dormir ouvindo o Rick solando blues. Acredito que a mágica mesmo é a lembrança de tão bons momentos em minha vida, onde as amizades que forjei continuam vivas como nunca!
















