Valeu a pena?
Nem alto, nem baixo. Está na média. Sempre atraiu o sexo oposto pela originalidade, inteligência e por ostentar a vivacidade de uma criança. Gosta de coisas da infância e também de adultos como ele, mas no fundo não se enquadra. A atração inicial que exerce logo se torna distância, pois não parece uma criança; é uma criança! Uma criança de uns doze anos, segundo sua inseparável companheira.
A emoções pelas quais se deixa levar são de uma criança. Ama todas as pessoas e coisas da mesma maneira que sempre amou, desde seu primeiro vislumbre. É benção e sua maldição. Cada perda é uma lança que o atravessa, e assim fica, para sempre. Feridas não cicatrizam. Sofre por cada amor que teve, como se os tivesse perdido hoje.
Não compreende, não se concentra. A escola sempre lhe pareceu uma perda de tempo. Nunca se adaptou, nunca conseguiu realmente aprender numa sala de aula. Sempre teve que se virar sozinho, estudando em casa, para conseguir o mínimo para passar de ano. Os professores sabiam que era brilhante e muitos não compreendiam o porquê de não ser o primeiro da turma. Não se sabia nada sobre transtornos de atenção, autismo e coisas afins.
Durante muito tempo pensou que fosse louco ou retardado, pois seu mundo era diferente do mundo dos outros. Sofria o que hoje é conhecido como “Bullying” e buscava aprovação dos que o cercavam. Ridicularizado muitas vezes, voltava-se para suas ideias, projetos, escritas e desenhos, o que o consolava e deixava feliz. Violências aconteceram, mas na maioria das vezes não se defendeu, por medo irracional, até que apagou um sujeito que o fustigava, mudando sua postura para este tipo de coisa na vida. Ironicamente o cinema imortalizou atitude semelhante, em “De volta para o futuro”, mostrando o quanto muitos sofreram (e sofrem) com esse tipo de violência.
O tempo passou, a vida avançou, o sucesso esperado pelas pessoas que o cercavam não veio. Não que tenha ligado para isso algum dia, pois dinheiro para ele não fazia diferença. Entretanto, numa das pressões da vida ele fitou, por algum tempo, uma foto de sua infância, brincando com um caminhãozinho, bem vestido e feliz. Em seu desespero perguntou para os pais falecidos:
_ Valeu a pena perder tanto tempo e dinheiro comigo?
A resposta veio quase de imediato, na imagem do sorriso de sua falecida mãe, e neste momento tudo começou a voltar ao normal. Embora sabedor de que nunca irá pensar, sentir e raciocinar como o mundo que o cerca, encara seus dias vindouros com esperança renovada e consciência de que ser assim pode ser um dom.
Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor e pesquisador do UNIFOR-MG
Coordenador do laboratório de mineralogia. e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br

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