VENTO

VENTO
AC de Paula (de São Paulo-SP)




A brisa que move moinhos não resiste ao vendaval de boletos vencidos, que empurram as asas dos sonhos e ilusões, sem cobrar taxa de embarque emocional.

Enquanto isso, alguém, (eu, você, ele), vai pelas ruas como quem procura um acorde perdido. Houve um tempo em que, bastava um luar de prata

desses que escorriam pelo telhado como leite derramado de romantismo,

e já nascia uma canção.

Hoje, o luar vem parcelado em amargas prestações no cartão da descrença. Cadê as noites serenas? Aquelas que tinham cheiro de café coado e promessa sussurrada na janela? Onde foram morar as serestas que afinavam o coração mesmo quando o bolso estava desafinado?

O violão ainda existe. Mas às vezes parece tocar sozinho, como se perguntasse: “Quem foi que trocou poesia por planilha?” O vento, meus amigos, não deixou de soprar, Dom Quixote que o diga! Somos nós que fechamos as janelas com medo de bagunçar a sala organizada pela lógica fria dos dias úteis.

Os moinhos continuam ali —parados, é verdade — esperando apenas um gesto de coragem para girar de novo. As asas dos sonhos não quebraram;

foram guardadas no armário entre diplomas empoeirados e fotografias que já não cabem no porta-retrato da pressa.

Talvez o vento more na teimosia de quem ainda canta mesmo fora do tom.

Na ousadia de quem faz seresta em condomínio fechado de emoções contidas. Na poesia escrita em guardanapo ou no verso da conta de luz

— porque se é para pagar caro, que ao menos ilumine a alma.

Cadê o vento? Ele sopra quando alguém acredita que ilusão não é mentira — é um ensaio de realidade. E enquanto houver um violão encostado na parede, uma lua insistindo em nascer e um coração disposto a desafinar bonito, o vento volta. E o moinho ensaia um sorriso tímido de felicidade.

o autor é escritor, compositor e dramaturgo