Ventre boleia

Ventre boleia
Robledo Carlos (de Divinópolis)




Ela tem filho  no ventre

despertar era preciso

antes que o sol adentre

já cansada sem sorriso

Faz marmita, leva o pão

põe um lenço na cabeça

põe perneira e facão

com neblina ainda espessa

Na boleia outras caras

com pertences junto ao banco

alguns cantam em voz clara

em compassos, solavancos

E então começa a lida

decepar o pé da cana

mesmo com a mão ferida

corta doce, amarga vida

Tem a queima, tem o vento

vai rompendo a tarefa

tem espreita o peçonhento

o capataz que não blefa

grita a todos os cantos

se não pode, há quem ceifa

Ela vive de esperança

de sonhos ainda por vir

traz no ventre a criança

que vai cantar, vai florir

desse sonho há quem possa

pede à Deus ela parir