Crônica: O gosto bom da cidade...

Rubem Alves (1933-2014)

Crônica: O gosto bom da cidade...
‘O Pergaminho’ publica crônicas de Rubem Alves por ter recebido autorização escrita do próprio autor




Colocam-se nomes de pessoas nas ruas para que elas nunca sejam esquecidas. Mas logo acontece com os nomes o que acontece com as cascas de cigarras: ficam ocos. Desaparecem as memórias, não mais se tem lembrança daquele que, um dia, respondia quando aquele nome era pronunciado. Moro na rua Sampainho. Imagino que "Sampainho" é um diminutivo carinhoso de "Sampaio". Quem terá sido essa pessoa? Moro na rua com o seu nome, mas não tenho ideia de quem teria sido o tal.

Poucas são as ruas que nos trazem lembranças. É o caso da rua Rev. Eduardo Lane, que conheci, cuja casa frequentei. E da rua Erasmo Braga, que conheci de uma maneira curiosa quando era ainda criança. Erasmo Braga foi um extraordinário intelectual que viveu em Campinas, e foi professor no Seminário Presbiteriano, em anos que já vão longe. Profeta que via longe, foi precursor do ecumenismo. Mas sua grande paixão era a educação. Foi da sua inteligência que surgiu uma série de livros didáticos que levavam o seu nome.

Pois foi numa cidade de Minas, eu tinha nove anos, que li, na escola, o seu livro de leitura. Até hoje não me esqueço do prazer que eu tinha em ler os textos que ele havia escolhido. Erasmo Braga conhecia alma das crianças. Pois um dos textos que mais me marcaram era sobre Campinas, que naquele tempo tinha o nome de Cidade das Andorinhas. As andorinhas haviam se apossado de um mercado abandonado e nela fizeram sua morada. Lendo o texto de Erasmo Braga eu ficava a imaginar o espetáculo: milhares de andorinhas voando ao cair da tarde, cobrindo o céu. A revoada das andorinhas era atração turística.

Acontece que, no transcurso dos anos, como não poderia deixar de ser, as fezes das andorinhas se transformaram em montanhas, exalando um fedor insuportável que empestava os arredores do marcado. Os administradores da cidade, com as melhores das intenções, resolveram cooperar com as aves: valendo-se de sua ausência no inverno, fizeram uma limpeza geral no marcado velho, dando-lhe pintura nova. Não sabiam eles que aquilo que para os humanos era fedor, para as andorinhas era um perfume delicioso, que marcava a sua casa. Quando elas voltaram para o seu lar, guiadas pela memória feliz do perfume doméstico, não o encontraram. Não reconheceram a sua casa. Foram embora para nunca mais voltar. Quando vim para Campinas, em 1953, o mercado ainda estava lá, abandonado.

Pois foi assim, através de Erasmo Braga (que só conheci através de um livro de leitura para crianças), que fiquei sabendo de uma cidade mágica, lar de andorinhas, chamada Campinas. Campinas era uma cidade gostosa de se viver. Tranquila, limpa, espaços mansos, jardins imensos, palmeiras, tipuanas, jequitibás. A cidade era uma extensão das casas. Podia-se andar por ela com a mesma tranqüilidade com que se andava pela casa.

Mas Campinas era mais que uma cidade mágica de andorinhas, bela e tranquila. Era uma cidade onde a inteligência florescia. O seu Colégio Culto à Ciência era famoso por sua excelência. E também o Centro de Ciências, Letras e Artes. No seu clássico Teatro Municipal, demolido pela loucura da modernidade, se ouviam os grandes artistas. Campinas tinha um belo corpo, sim.

Mas Campinas tinha também uma bela alma. É a alma da cidade que a torna um lugar humano. Campinas era uma cidade de cultura. Já escrevi sobre casas que emburrecem. Se há casas que emburrecem, há também casas onde a inteligência floresce. Pois Campinas era uma cidade em que a inteligência florescia. Hoje, lamento dizer, Campinas é uma cidade que emburrece. A inteligência não floresce em canteiro onde existe o medo.

Assim são as cidades, em tudo iguais a nós mesmos. Nós temos um corpo. Nós temos uma alma. O corpo é feito com coisas materiais: ossos, músculos, nervos, sangue, órgãos, aparelhos. Quando qualquer parte do corpo não funciona bem o corpo fica doente, podendo até morrer. Por isso é preciso cuidar do corpo: para viver, para viver com saúde. Mas nós não somos o corpo que temos.

Veja a viola de 10 cordas, tocador exímio sendo meu amigo Ivan Vilela. A viola só existe para fazer música. Sem o tocador a viola fica muda. Inútil. Pode até acontecer que ela venha a ser usada como arma de agressão, por um desordeiro, em briga de bar. A viola, para ser boa, tem de fazer a música que está na alma do tocador. Pois o corpo é assim mesmo: como uma viola... Há muita gente, viola boa, saúde 100%, malhação, musculação, coração, colesterol e triglicérides – tudo dentro dos padrões – que é como viola desafinada, sem tocador. Não faz música. Só faz barulho.

Ninguém é amado por ter saúde boa. Há pessoas de boa saúde cuja companhia ninguém deseja. E, ao contrário, há pessoas de corpo doente que são fontes de beleza. Esse foi o caso de Beethoven que, completamente surdo, compôs a 9ª sinfonia – uma exaltação à alegria. Assim aconteceu com Mário Botas, jovem médico português que, atingido pelo câncer, tendo poucos anos de vida, dedicou todo o resto de sua vida a pintar quadros extraordinários. Nietzsche confessou que sua filosofia nascera de sua doença. A doença pode tornar as pessoas mais belas – se elas possuem uma alma.

O corpo define algo a que poderíamos dar o nome de "ordem da eficácia". Corpo é ferramenta para viver. Tem de funcionar bem. Já a alma define uma "ordem de amor", o círculo das coisas que dão alegria para o corpo.

Pois a cidade é igualzinha a nós. Também ela tem um corpo, a sua "ordem de eficácia" – coisas que devem funcionar bem para que a cidade tenha saúde: ruas, rede de esgoto, rede de água, rede elétrica, coleta de lixo, tráfego, polícia. Quando qualquer uma dessas partes do corpo da cidade não funciona bem, é o caos. Uma administração responsável tem de cuidar da saúde física da cidade, para que a vida urbana possa fluir sem tropeções.

Mas não basta que uma cidade seja corporalmente perfeita para que seja lugar de alegria. A perfeição corporal da cidade, como acontece com nossos corpos, pode ser algo emburrecedor. Conheço cidades fisicamente perfeitas que são um tédio. Todo mundo só fica esperando o fim de semana para se mandar para um outro lugar. Perfeitas na "ordem de eficácia" – vazias na "ordem o amor". Cidades sem alma.

A alma das cidades é aquilo a que se dá o nome de "cultura". Cultura não é saber demais. Cultura é sabor: o "gosto bom" da cidade. Não basta que as casas sejam funcionais. É preciso que elas sejam bonitas. A cor com que são pintadas faz diferença para a alma. Não basta que o tráfego flua. É preciso que os motoristas não sejam possuídos pela ilusão da velocidade, do passar na frente, do "fechar o outro". A alma da cidade se manifesta no tráfego. Ah! As buzinas nervosas! É preciso saber que os pedestres sempre têm a preferência, porque eles são frágeis. A marca da brutalidade do tráfego se encontra no olhar amedrontado das pessoas, ao atravessar a rua. Os motoristas são feras. Fazer uma pessoa correr, pela ameaça do carro: isso é uma demonstração de selvageria.

Assombrei-me numa cidade do Paraná, próxima à divisa, ao ver que todos os motoristas paravam nas faixas de pedestres. Isso é uma norma já consagrada mundialmente. Não basta que o lixo seja recolhido. Também o jeito como se recolhe o lixo é prova de amor. Coleta seletiva de lixo: lixo orgânico, lixo reciclável, vidros, plásticos, latinhas de alumínio. A questão não é se livrar do lixo. A questão é devolvê-lo à circulação sob outra forma, para proteção do meio ambiente. Em Campinas, houve tentativas que logo morreram. As autoridades não ligaram. Coleta seletiva de lixo não era politicamente rentável.

Segurança é indispensável. Mas não basta. A segurança existe para que as pessoas sintam prazer em andar pelas praças e parques. Penso nos velhos, trancados em pequenos apartamentos. Bem que eles gostariam de poder andar pelas ruas, para renovar a sua vida. Por medo, passam seus dias diante da televisão. O medo e a degradação das cidades forçaram as pessoas a se refugiar nos shopping centers. Quanto mais os shopping centers crescem mais a cidade se empobrece culturalmente. E a vida noturna? Os bares são importantes. Lugares da vagabundagem, neles a vida cultural pode florescer. É famosa a contribuição dos bares para a cultura francesa: neles se reuniam as pessoas para pensar enquanto bebericavam. Nos bares pode-se fazer filosofia.

Sonho com uma Campinas saudável de corpo. Sonho com uma Campinas saudável de alma. Quem quer que venha a se tornar prefeito de nossa cidade tem de ter isso na cabeça. Quero que Campinas faça minha inteligência florescer...