Crônica: A mudança

Rubem Alves (1933-2014)

Crônica: A mudança
O Pergaminho’ publica crô-nicas de Rubem Alves por ter recebido autorização escrita do próprio autor








Minhas netas: E sem de nada nos avisar meu pai chegou e anunciou sorridente: “Vamos nos mudar!”

Quando é que as pessoas mudam? As pessoas mudam por duas razões. Primeiro, se elas são obrigadas a mudar. Foi o que aconteceu com os índios. Eles eram donos de tudo por aqui. Vieram os portugueses, com armas de fogo, e por tiro e força os obrigaram a mudar para os lugares distantes da selva onde hoje eles se encontram. Foi o que aconteceu com os negros que viviam na África. Aprisionados pelos brancos, foram arrancados de suas casas e mudados à força para o Brasil, amarrados em navios negreiros, para trabalhar nas plantações como escravos, sob pena de chicote e morte. Foi o que aconteceu com muitas pessoas no Brasil no tempo da ditadura que, para fugir da prisão e da morte, tiveram de se mudar para outros países. Para esses, mudar foi uma tristeza e um alívio. Segundo: elas mudam quando querem. Mudam quando não estão felizes no lugar onde moram. Mudam para ter uma vida melhor. Foi o que aconteceu com os imigrantes portugueses, italianos e japoneses: deixaram os seus países e se mudaram para o Brasil porque a vida, no lugar onde viviam, estava difícil. É o que acontece com os nordestinos que deixam o nordeste para trabalhar em São Paulo. Cansados da vida dura e da pobreza, sonham que, se se mudarem para São Paulo, vão ficar ricos. E é o que acontece também com aqueles que, cansados com a vida da cidade, vão para o interior, na esperança de encontrar tranqüilidade.

Mas eu estava muito feliz lá na roça. Para mim não havia vida melhor. Na roça minha única experiência ruim era quando eu tinha dor de dente. Por mim eu não mudaria. “Mudar para onde?”, perguntei. Eu queria saber o destino que me aguardava. Meu pai percebeu o que estava acontecendo dentro de mim. E ao invés de me responder dizendo o nome da cidade ele respondeu falando sobre uma coisa que logo me fascinou. “Vamos nos mudar para uma cidade que tem trem-de-ferro!”

Eu não sabia o que era um trem-de-ferro. Eu nunca ouvira falar em trem-de-ferro. Perguntei então: “E o que é trem-de-ferro?” Meu pai não respondeu. Foi até a prateleira onde se encontrava a enciclopédia... “Encyclopaedia”: era assim que estava escrito. Antigamente as palavras não eram escritas da forma como as escrevemos hoje. A forma como eram escritas contava sobre os países onde haviam nascido, as línguas de onde provinham, seus sentidos originais. Nisso as palavras se parecem conosco: elas nascem!

Você nunca se perguntou sobre quando e onde uma palavra nasceu? Por exemplo: a palavra “bola”. Quem será que, pela primeira vez, disse os sons “bola” para significar uma bola? Por que será que esses sons “bola” e não outros, foram os escolhidos? E o interessante é que uma outra pessoa tem de ter entendido o que se queria dizer com esses sons. Se falo um som que ninguém entende, esse som não é palavra. Ainda hoje as palavras nascem. Palavras novas que não estão no dicionário têm o nome de “gíria”. Mas quem será que inventou a palavra “gíria”? Ela não é gozada? Os jovens inventam palavras novas, saem por aí falando, os outros jovens os entendem, mas nós velhos não entendemos. Muitas das palavras que usamos nasceram em outros países onde se falavam línguas que não entendemos: o Grego e o Latim, por exemplo. Pois a palavra “encyclopaedia” se escrevia assim para dizer de que língua ela nascera e com que palavras menores fora formada. Ela é formada pela junção de duas palavras gregas: enkyklios, que quer dizer “num círculo” e paideia, que quer dizer educação. Uma enciclopédia é um livro ou coleção de livros que põe, num círculo, as coisas que são importantes para a educação. Quando a gente quer saber uma coisa, a encyclopaedia explica.

Vocês se lembram de que eu lhes disse que o meu pai, seu bisavô, foi rico e ficou pobre. Todas as coisas caras que tinha – casas, automóveis, fábricas – tiveram de ser vendidas para pagar as dívidas. Das coisas que tinha sobraram apenas: o piano “Playel” da minha mãe, com castiçais para velas, presente de casamento importado da França; um relógio de bolso de ouro; uma coleção de livros chamada Biblioteca Internacional de Obras Célebres (foi nessa coleção que meu pai me leu, pela primeira vez, a estória de Robinson Crusoé); e a Encyclopaedia... Como eu estava dizendo, meu pai foi até a prateleira onde se encontrava a Encyclopaedia e procurou o volume com a letra “L” gravada na capa preta, em ouro, e dentro, usando a ordem alfabética (se ele não soubesse a ordem alfabética ele nunca teria encontrado o que procurava; a ordem alfabética é a chave para abrir o conhecimento dos dicionários e enciclopédias) procurou a palavra “locomotiva”. (Pergunte ao seu pai ou professor sobre a origem dessa palavra, “locomotiva”... Ela é formada pela a junção de que outras palavras? Esse joguinho é muito divertido. Igual a detetive: esclarecer os “antecedentes” das palavras...). Aí ele me mostrou fotografias de locomotivas. Mostrou e explicou. Disse que eram feitas de ferro. Que eram muito pesadas. Que suas rodas eram enormes. De tão pesadas não podiam andar nas estradas comuns, de terra: afundariam. Andavam sobre trilhos de aço presos no chão. Dentro delas havia uma fornalha com fogo acesso. O fogo aquecia a água, presa dentro de uma caldeira. Me explicou o que era uma caldeira. Pois a tampa da chaleira, quando a água estava fervendo, não subia? Era o vapor da água que fazia a tampa da chaleira subir. Uma caldeira era uma chaleira enorme que não deixava o vapor escapar. O vapor preso ficava muito poderoso. Tão poderoso que fazia girar as rodas da locomotiva. A panela de pressão é um tipo de caldeira. A força do vapor, dentro dela, é tão grande que, para se abrir, é preciso ou deixar que o vapor saia, levantando-se um chapéu pesado que cobre um pino, ou diminuir a pressão do vapor, pondo a panela debaixo da água fria. Meu pai nada falou sobre panelas de pressão. Naquele tempo elas ainda não haviam sido inventadas. Disse que o vapor, passando por um cano, fazia a locomotiva apitar. O maquinista puxava uma corda para fazer a locomotiva apitar. O apito era a buzina da locomotiva. Quem estivesse sobre os trilhos que fugisse, pois a locomotiva não podia se desviar. Na cabine ficavam o maquinista, encarregado de controlar a locomotiva, fazê-la andar, frear, apitar. E o foguista, que jogava lenha na fornalha, para que o fogo estivesse sempre aceso. Engatados na locomotiva vinham os vagões onde ficavam os passageiros. Da chaminé da locomotiva saíam brasas aos milhares, em virtude do fogaréu que havia lá dentro. De noite era uma beleza! Era como se de dentro da barriga da locomotiva saíssem milhares de estrelas! Mas era preciso ter cuidado. Vez por outra uma dessas brasas entrava pela janela do vagão onde estavam os passageiros e ou fazia um buraco no terno de um homem ou iniciava um pequeno incêndio na cabeleira de uma mulher... Por isso aqueles que viajavam de trem se protegiam com casacos chamados “guarda-pó”, vestidos sobre os ternos, e usando chapéus ou bonés...

Meu pai ria enquanto me explicava a locomotiva. E eu já estava encantado, ao ouvi-lo falar. Queria me mudar para a cidade onde havia locomotivas. Quem sabe, algum dia, eu chegaria a ser maquinista de uma locomotiva? Ele era assim: espalhava risos quando falava. Ele tinha a capacidade mágica de tornar alegres até mesmo as coisas tristes. E, naquele momento, ele precisava ter alegria. Tinha quarenta anos, havia perdido tudo, tinha de se mudar para começar vida nova, a partir do zero, tendo apenas ele próprio, um relógio de ouro e sua capacidade de falar. E seria indispensável morar numa cidade onde houvesse trem-de-ferro. Seu novo trabalho exigiria que ele viajasse. Ele seria viajante: iria de cidade em cidade vendendo coisas...

Eu não me lembro direito do dia da mudança. Lembro-me que me acordaram muito cedo. E me espantei de ver o céu coberto de estrelas. Para mim, menino, céu coberto de estrelas acontecia de noite, quando se ia para a cama. Que estranho! Eu estava me levantando, era manhã, e o céu estava coberto de estrelas...

E foi assim, com o céu coberto de estrelas e o horizonte se avermelhando que eu deixei o mundo onde meus companheiros eram os cavalos, as vacas, as galinhas, os riachinhos e me mudei para o mundo desconhecido onde corriam os trens-de-ferro movidos a fogo e vapor...

Os trens-de-ferro inspiraram poetas, fotógrafos, compositores. Com o compositor Villa-Lobos virou música de orquestra: O Trenzinho do Caipira. Com a Adélia Prado virou poema: “Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento.” E com o Milton Nascimento virou canção: “Maria-fumaça não canta mais para moças, flores, janelas e quintais...”

Ravel foi um compositor extraordinário. Todos o conhecem pelo Bolero, orquestral, que é também lindo como balé. Escreveu uma peça estranha para piano e orquestra, Concerto para mão esquerda. Então, somente a mão esquerda toca? Sim. A direita não podia tocar. A peça foi dedicada a um amigo seu, pianista, irmão do filósofo Ludwig Wittgenstein, que havia perdido a mão direita na guerra. Disseram-me que quando estava velho e sentia o fim próximo, dizia, como um lamento: “Mas há tantas músicas esperando ser escritas!” Com certeza o tempo não se detém para esperar que a beleza aconteça...