Cronicando: Cânfora de mãe

Robledo Carlos (de Divinópolis)

Cronicando: Cânfora de mãe
Robledo Carlos é membro da Academia Formiguense de Letras








A memória ainda guarda poucas lembranças, pouquíssimas, e olha que lutei muito em buscas de conservá-las no fundo de minha alma.
Sempre faço poemas, procuro falar do amor, do belo, falo de você.
Mas o tempo é perverso, mas, por outro lado, é cânfora, é alívio e frescor, quase um bálsamo.
Nessa mesma essência, tenho ainda o frescor de seus olhos preocupados olhando para mim, a esfregar no meu peito para aliviar a tosse e limpar minhas vias aéreas em um carinho celestial.
Febrilmente a depositar total confiança na cura angelical de mãe.
Há um eterno menino órfão à tua espera na janela, esperando vê-la caminhar garbosamente a caminho de casa.
Hoje, na janela, é um velho filho que ainda a espera.
Escuto ainda seus sussurros em orações, ouvia soletrar nossos nomes, baixinho, como se estivesse falando ao pé do ouvido de Nosso Senhor.
Eu ainda ouço sua canção preferida, subindo a montanha na velha radiola que ainda conservo.
Ouço Altemar Dutra, “Sentimental eu sou, eu sou demais”.
Eu planto boca-de-leão, tenho antúlios e um jasmim, preciso dessas cores e cheiros para dar cor e sentido na minha direção!
Tenho violetas azuis que você gostava.
Tenho um esposa linda, quatro filhos e um neto, ele tem seus olhos.
Passarão os dias, eu ficarei atento em minhas lembranças, eu não posso imaginar te perder duas vezes.
Passarão séculos, eu ainda hei de te encontrar.
Antes mesmo que de meus sonhos eu acorde, antes mesmo que amanheça, eu imploro a Deus pra que eu nunca te esqueça, meu anjo.
Amor velho de filho, apaixonadamente para você, mãe!